Um dos crimes foi cometido na bucólica Lúna, comunidade que fica em Lençóis
A Polícia Civil da Bahia investiga as mortes de José Raimundo Mota de Souza Júnior, de 36 anos, ocorrida dia 13 de julho na comunidade Jiboia, município de Antônio Gonçalves (a 380 km de Salvador) e de Lindomar Fernandes Martins, 37, dia 16 de julho, na comunidade de Lúna, em Lençóis (a 394 km de Salvador).
Os dois crimes ocorreram dentro de áreas de remanescentes de quilombos em fase de regularização pelo Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra).
Na Bahia, existem 303 processos de regularização em andamento, dos quais 34 já tiveram publicados o Relatório Técnico de Identificação e Delimitação (RTID). No estado, não há território quilombola titulado, embora o Incra já tenha recebido a posse de imóveis que integram alguns. Segundo o órgão, a transferência de domínio depende da conclusão de contestações judiciais.
Sem informações
De acordo com o delegado titular de Senhor do Bonfim, que atua como substituto na cidade de Antônio Gonçalves, Leonardo Virgílio, até esta terça, 18, não haviam informações sobre a autoria e motivação da morte de José Raimundo, que era presidente da associação de trabalhadores quilombolas do local.
“O irmão da vítima disse que ele não tinha inimigos e que ambos estavam trabalhando na roça, quando quatro homens com roupa camuflada em um carro preto, atiraram contra a vítima”, disse o delegado.
Conforme nota do Incra, o Território Quilombola de Jiboia teve publicado o RTID. Com 2.016 hectares, abriga 224 famílias.
“O Incra/BA já notificou os proprietários dos imóveis inseridos no perímetro e atualmente transcorre o prazo de 90 dias em que cabe a contestação por parte dos proprietários”, de acordo com o instituto.
A Comissão Pastoral da Terra (CPT), entidade ligada à Igreja Católica, informou que José Raimundo fez parte da coordenação estadual do Movimento dos Pequenos Agricultores da Bahia, mas se afastou, em 2016, depois da morte da liderança da comunidade Santana, João Alves, o Bigode.
Conforme nota da CPT, José Raimundo foi o 47 º trabalhador rural morto no Brasil este ano vítima dos conflitos agrários, atingido por mais de 10 tiros enquanto trabalhava. O irmão que estava com ele foi agredido e imobilizado pelos criminosos.
Ainda segundo a CPT, o crescimento da bancada ruralista no Congresso Nacional, a extinção do Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA) e da Ouvidoria Agrária Nacional, aumentaram a sensação de impunidade e impulsionaram as disputas pela terra.